Por Glauco Morais, psicologo e psicanalista contato 12 3959-1427
Existe um tipo de silêncio que só aparece aos sábados.
A casa está arrumada.
A roupa já foi lavada.
O café foi passado sem pressa.
E, ainda assim, parece que alguém esqueceu de chegar.
Curioso como certas ausências ocupam mais espaço do que
algumas presenças.
Não são exatamente pessoas.
São possibilidades.
A conversa que não aconteceu.
A viagem que ficou para depois.
O abraço que talvez tivesse sido diferente.
Há dias em que alguma coisa parece faltar.
Nem sempre é fácil dizer exatamente o quê.
Porque algumas relações terminam levando embora coisas que
nem percebemos que havíamos entregue.
A leveza.
A coragem de confiar sem tantos cálculos.
A facilidade de responder uma mensagem sem antes imaginar
todos os finais possíveis.
As relações fazem isso conosco.
Nem sempre deixam feridas abertas.
Às vezes deixam apenas um jeito diferente de caminhar.
Um cuidado a mais antes de confiar.
Uma demora maior para responder.
Uma prudência que, aos poucos, passa a ser confundida com
maturidade.
E convenhamos... a maturidade tem uma excelente assessoria de
imprensa. De vez em quando, ela é apenas o medo usando uma roupa mais elegante.
Ainda assim, existe uma insistência curiosa na vida.
Sem perceber, um dia a gente responde uma mensagem mais
rápido.
Aceita um convite.
Ri um pouco mais alto.
Conta uma história que havia parado de contar.
E só depois percebe que alguma coisa voltou.
Talvez não exatamente aquilo que foi perdido.
Mas uma maneira diferente de estar no mundo.
A vida também tem dessas ironias.
Passamos um tempo enorme tentando recuperar exatamente aquilo
que perdemos.
Como se o futuro tivesse a obrigação de devolver o passado.
Até que um dia, distraídos, deixamos de procurar.
E é justamente aí que alguma coisa acontece.
Uma conversa.
Um encontro.
Uma risada inesperada.
Ou apenas a estranha sensação de que já não somos mais quem
éramos.
E, pela primeira vez, isso deixa de parecer uma tragédia.
Talvez crescer seja justamente isso.
Descobrir que a vida quase nunca devolve o que levou.
Mas, de vez em quando, entrega algo que jamais teríamos
imaginado procurar.

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