Por Alice Krug - cronista
Soraya está comigo há muito tempo, desde que éramos crianças. Sempre alerta, um tanto pessimista e, às vezes, até cruel. Seus conselhos, tal qual uma foice afiada, já cortaram rente ao solo brotos de alguns sonhos meus, que poderiam ter crescido e florescido em outros jardins. Não a culpo. Eu poderia ter feito ouvidos moucos. Hoje, já mais madura e com um tanto de autoconhecimento, sabendo que Soraya é a primeira a opinar sobre tudo, já não lhe dou tanta atenção. Ela até insiste e sabe bem o momento de me influenciar. É companhia para noites de insônia; costuma falar alto e incansavelmente por volta das três da manhã. Soraya é infernal.
Clara
é o oposto de Soraya. Nossa proximidade começou um pouco mais tarde; acho que
éramos adolescentes. Clara fala manso, baixinho, tem a leveza e a sutileza de
uma pluma ao vento e, às vezes, no caos do dia a dia, fica difícil conversar
com ela, porque é daquelas amigas que necessitam de tempo, silêncio e
acolhimento para falar. O mais interessante é que, diferentemente de Soraya,
que argumenta logicamente, Clara sugere e apenas diz: “Eu não sei o porquê, mas
só sei que é assim”. E, por incrível que pareça, ela sempre, sempre, é mais
certeira nos direcionamentos que Soraya e sua lógica. Das vezes em que não ouvi
o que Clara me disse, colhi dor, decepção e frustração. Ela, magicamente, parece
saber o melhor para mim. A música “Povoada”, de Sued Nunes, tem uma frase que
define bem essa relação. Soraya é a minha
autossabotagem; Clara, a minha intuição. E eu, hoje, acolho e equilibro o que
cada uma me oferece, sabendo que eu sou uma, mas não sou só.

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