Por Glauco Morais, psicólogo e psicanalista contato 12 3959-1427
As vidas que parecem dar certo
Há vidas que parecem dar certo. Não porque sejam felizes, mas porque funcionam.
Funcionam no horário, na
produtividade, na resposta rápida. Funcionam nas fotos, nos encontros marcados,
na aparência de controle. São vidas que seguem adiante sem grandes escândalos —
e talvez por isso passem tão facilmente por bem-sucedidas.
De fora, tudo está em ordem. De
dentro, quase ninguém pergunta.
Aprendemos desde cedo a sustentar
imagens respeitáveis de nós mesmos. A parecer equilibrados, resolvidos,
interessantes. Com o tempo, vamos chamando isso de maturidade. E, sem perceber,
confundimos dar conta da vida com estar vivo.
Há um tipo específico de cansaço que
mora nessas vidas que parecem dar certo.
Não é o cansaço de quem fracassou, mas o de quem sustenta demais. É o esgotamento elegante, que não faz barulho. O cansaço que se disfarça de rotina.
Essa coluna nasce desse ponto exato:
do intervalo entre o que se mostra e o que se vive. Do espaço silencioso onde
as coisas continuam funcionando — mesmo quando já não fazem tanto sentido
assim.
Nos próximos meses, falaremos da vida
instagramável, essa vitrine cuidadosamente iluminada. Do amor transformado em
promessa de completude. Do capitalismo que nos exige desempenho até no
descanso. Das ilusões que nos mantêm de pé — e daquelas que nos custam caro
demais.
Nada aqui pretende ensinar ou
corrigir.
A proposta é olhar com um pouco mais
de honestidade para aquilo que costuma passar despercebido justamente porque
“está tudo bem”.
Porque quase toda vida parece dar certo… até o momento em que alguém se permite perguntar: Deu certo para quem?

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