Por Glauco Morais, psicólogo e psicanalista contato 12 3959-1427
*Sobre
o que não foi postado*
Nem tudo o que
importa aparece na foto.
O sorriso saiu
bonito.
A paisagem ajudou.
A legenda
encontrou as palavras certas.
Quem vê de fora
imagina que ali havia felicidade.
E talvez houvesse.
Mas a vida sempre
guarda alguma coisa fora do enquadramento.
O silêncio depois
da discussão.
A ansiedade antes
de dormir.
A sensação
discreta de que, apesar de tudo, ainda falta alguma coisa.
Curioso como as
imagens quase sempre mostram o instante em que a vida parece fazer sentido.
O que elas
raramente mostram é o que acontece quando a tela se apaga.
O quarto em
silêncio.
O celular no
criado-mudo.
E alguém se
perguntando por que continua se sentindo sozinho.
Nada de
extraordinário.
Apenas essa
experiência tão humana de perceber que nem sempre o reconhecimento dos outros
consegue preencher aquilo que continua faltando por dentro.
Ainda assim, as
pessoas seguem publicando.
Não
necessariamente para enganar.
Às vezes, apenas
para sustentar a esperança de que alguém, em algum lugar, confirme que aquela
vida — e aquele esforço todo para vivê-la — realmente vale a pena.
Talvez seja por
isso que certas fotos emocionem tanto.
Não porque mostrem
uma felicidade perfeita.
Mas porque
revelam, ainda que sem querer, o desejo muito humano de que a própria
existência encontre algum lugar onde possa ser vista, acolhida e, quem sabe,
amada.
No fim das contas,
talvez essa seja uma das formas contemporâneas de dizer:
“Estou aqui.”
E, como quase todo
pedido de amor, esse também costuma vir acompanhado de filtros.

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