Por Glauco Morais, psicólogo e psicanalista - contato 12 3959-1427


 

Depois do sábado

Depois do sábado, a vida continua. A mesma casa.

O mesmo caminho até o trabalho. O mesmo café apressado.

À primeira vista, nada mudou. Mas basta tentar habitar a vida de ontem para perceber que ela já não nos veste da mesma maneira.

Curioso como passamos boa parte da vida procurando um lugar.

Um lugar onde caibam nossos afetos. Nossos medos.

Nossas escolhas. Nós mesmos. E, quando acreditamos finalmente tê-lo encontrado, a vida, silenciosamente, muda alguma coisa.

Não o lugar. Nós. O endereço continua o mesmo. Quem já não cabe somos nós. Talvez seja por isso que tantas mudanças aconteçam antes por dentro do que por fora. Continuamos frequentando os mesmos lugares. Conversando com as mesmas pessoas.

Repetindo hábitos antigos. Até que, num dia qualquer, percebemos que alguma coisa deixou de fazer sentido. Não houve briga.

Nem ruptura. Nem grandes acontecimentos.

Apenas a delicada constatação de que seguimos vivendo... e, por isso mesmo, seguimos mudando. Confesso que sempre achei curioso o nosso esforço para permanecer iguais.

Chamamos isso de coerência. Às vezes é apenas medo.

Ainda assim, a vida insiste. Empurra discretamente uma cadeira.

Abre espaço numa estante. Muda um desejo de lugar.

E, quando menos esperamos, já estamos chamando de casa um lugar que, algum tempo atrás, jamais imaginaríamos habitar.

Talvez crescer seja justamente isso. Descobrir que encontrar um lugar nunca foi uma tarefa definitiva. É um trabalho de recomeço.

Porque, no fim das contas, não somos nós que encontramos um lugar na vida.

São as mudanças da vida que, aos poucos, nos ensinam a habitar aquilo que nos tornamos com um pouco mais de dignidade.

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é…

 

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